Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Psicanalistas na comunidade: projetos e parcerias

  • Ansiedades e preocupações com o retorno às aulas e sobre o impacto da pandemia na vida de cada um foram temas de encontros. Crédito foto: Anselmo Cunha/PMPA

Grada Quilomba diz que, no ato de fala, há uma negociação entre o sujeito falante e o seu ouvinte, no qual o falante só pode tornar-se o sujeito falante se o outro decidir ouvi-lo, o que também significa pertencer à comunidade. Embora a perda de conteúdos pese no cômputo de prejuízos decorrentes da pandemia, a defasagem emocional constitui a maior delas, pois há um ano e meio não se escutam as vozes das crianças e adolescentes em seu principal local de socialização. Foi justamente nos setores vulneráveis que mais se evidenciou a necessidade de reformular políticas rumo a possibilidades inclusivas.

Em meio às precariedades, o conversar, o falar e o ser escutado, no campo da inter-relação entre psicanalistas, educadores, crianças e famílias, criou um espaço compartilhado, através do qual as experiências frustrantes e dolorosas puderam se tornar palavras.

Foram realizados dois webinários, um promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED), A hora e a vez do professor, com a proposta de conversar sobre as ansiedades e preocupações com o retorno às aulas, e o outro promovido pelo Fórum, Ponto e contraponto sobre os desafios do retorno das escolas, em que participaram setores da sociedade que lidam com as crianças e os jovens da capital gaúcha. Destaca-se a importância do estabelecimento de novas redes entre a psicanálise e os diferentes setores da sociedade civil envolvidos com os espaços de acolhimento das crianças e jovens no município. Apresentou-se o trabalho Ressignificando o papel da escola no laço social, do Grupo de Estudos de Psicanalistas na Comunidade da Federação Psicanalítica da América Latina (FEPAL) e com participação de membros das duas parcerias, sobre a visão da psicanálise na pandemia. Foram feitas Rodas de Conversa com a educação e nos Fóruns, consolidando o trabalho em rede proposto pela psicanálise. Com as parcerias escreveu-se, e divulgou-se pela SPPA como carta aberta, o manifesto Vacinas para a educação, reafirmando-se a prioridade da vacinação para o retorno seguro às aulas presenciais.

O trabalho realizado pela parceria SPPA/Projeto Pescar no ano de 2019/2020 foi ampliado, passando a contemplar não só os educadores sociais dos mais diferentes estados do Brasil como também os colaboradores da Fundação que se ocupam diretamente dos educadores. Assim, seguiu-se com a extensão horizontal (Brasil), bem como com a vertical - a Coordenação do Projeto Pescar. Em 2021, deu-se continuidade às já tradicionais Rodas de Conversas (RC), agora intituladas Pensar e Pescar: repensando o meu fazer. Desta forma, o impacto da pandemia na vida de cada um e de todos tem encontrado acolhimento nas RC, consideradas momentos privilegiados de trocas e de vivências frente às angústias causadas pelas ameaças à própria vida e à de pessoas próximas, ao sustento e ainda às dificuldades de se executarem os trabalhos em condições tão adversas. Condições estas que transitam desde problemas de acesso à internet e de empobrecimento das famílias dos jovens que, em muitas situações, obrigam-nas a buscar trabalho extra, até a sobrecarga dos profissionais, acarretada pelo home office.

Os psicanalistas envolvidos nesse trabalho, reconhecem que essa oportunidade de estarem juntos, podendo compartilhar sentimentos e vivências, tem possibilitado dar algum destino ao traumático que acontece, ao mesmo tempo, de forma individual e coletiva. Esperam que o trabalho tenha repercussões positivas nas atividades dos educadores com os jovens — essência e razão do Projeto Pescar —, tão necessitados, neste e em todos os momentos, de olhar, suporte e cuidado.