Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autor

Cláudio Laks Eizirik

Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da SPPA.

Sobre a formação analítica

  • O elemento central da formação é a análise pessoal do futuro analista

A formação de futuros analistas é uma das áreas centrais da psicanálise, definindo a sua prática e dimensão ética, pois a partir dela mantemos sua relevância humana e terapêutica para enfrentar o sofrimento psíquico e contribuir para a saúde mental de nossa população.

Freud foi o responsável por iniciá-la, através da análise de pacientes que depois se tornaram analistas, mas a formação analítica propriamente dita foi instituída em 1920, com a criação da Policlínica de Berlim por Eitingon, criando-se o modelo tripartite: análise pessoal, seminários e supervisão analítica.

Nossa experiência centenária com a formação analítica inclui inúmeras modificações, acréscimos, flexibilizações e o reconhecimento de três modelos em 2006, mas essa estrutura básica mantém-se e se renova, tanto na IPA quanto em suas instituições.

O elemento central da formação é a análise pessoal do futuro analista. Existe uma complexa trama de fantasias inconscientes entre o analista em formação e o seu analista, assim como dos seus supervisores, professores, colegas, família, o instituto e a cultura em que vive. Esse é o espaço privado e íntimo de trocas e elaboração, em um processo necessariamente longo e paciente, que acompanha todas as etapas da formação. A partir dessa análise e dos demais procedimentos, além da progressiva experiência clínica, vai sendo desenvolvida uma identidade analítica, que não é algo fixo e estabelecido, mas uma obra em construção, uma forma de pensar e de sentir que oscila com os sucessivos estados mentais, experiências de vida e momentos do ciclo vital.

A supervisão analítica é uma relação mais informal que a análise, constituindo um espaço destinado à aprendizagem da clínica, com a manutenção de certa assimetria, ao lado de uma atitude espontânea e natural, que tem o potencial de transformação e estímulo à criatividade e ao estabelecimento de uma forma própria de ser analista

Outro elemento essencial para a construção da identidade é a instituição psicanalítica. Suas funções principais são oferecer um estudo aprofundado e não dogmático das teorias e dos fundamentos do exercício clínico, estimular o pensamento crítico e independente, bem como a discussão, produção e publicação de trabalhos que incluam as próprias ideias, além de estimular os analistas em formação a ter suas associações, acolher diferenças teóricas, dúvidas e questionamentos, manter currículos flexíveis e sujeitos à avaliação e renovação, oferecer atendimento analítico a pessoas de menor renda e desenvolver atividades conjuntas com outras áreas da comunidade e da cultura.

Em suma, a formação analítica é um processo interminável, mas necessita de uma base sólida, com procedimentos validados pela experiência contínua e que acompanham os desafios contemporâneos.