Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 40

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autor

Zelig Libermann

Psicanalista, membro efetivo e analista didata da SPPA

Participação Institucional: O quarto eixo da formação psicanalítica

  • O equilíbrio entre tradição e inovação está na base da continuidade futura da psicanálise

Ao longo de seus mais de cem anos, apesar das resistências enfrentadas, a psicanálise passou a ocupar um lugar legítimo na cultura de cada época, tanto no que se refere à condição de método terapêutico quanto em sua perspectiva de compreensão do funcionamento coletivo da humanidade. Nesse sentido, podemos dizer que psicanálise e cultura têm uma influência mútua.

O intercâmbio entre psicanálise e cultura repercute nos desafios que se apresentam às teorias psicanalíticas na busca por entender o psiquismo humano em conexão com as transformações culturais de cada período histórico. Além disso, tal intercâmbio se estende às instituições que têm como meta divulgar a psicanálise e promover a formação de novos psicanalistas.

Frente a tais demandas, os Institutos de Psicanálise precisam estar atentos às transformações culturais trazidas pelas novas gerações de analistas em formação. Ao mesmo tempo, é necessário preservar os preceitos invariantes da psicanálise. O equilíbrio entre tradição e inovação está na base da continuidade futura da psicanálise.

No que podemos considerar o campo da tradição, a formação dos psicanalistas centra-se em três eixos básicos: análise pessoal, seminários teóricos e supervisão analítica. A partir desses pilares, o analista em formação encontra-se inserido em um processo de construção permanente de sua identidade psicanalítica.

Em termos de inovação, uma vez que a formação analítica ocorre dentro das instituições psicanalíticas, há algum tempo, a International Psychoanalytical Association (IPA) e suas Sociedades componentes têm se preocupado com outro aspecto da trajetória dos analistas em formação, qual seja, a participação institucional, considerada o quarto eixo da formação psicanalítica.

Com relação a esse elemento, Anne Marlize Port Rodrigues afirma que:

O quarto eixo é acrescentado ao tripé da formação analítica. (...) Representa as vivências dentro e a partir da instituição com todos os intercâmbios científicos, associativos e subjetivos que ela proporciona. Inclui os fenômenos que dizem respeito aos agrupamentos analíticos, a relação do eu com o outro ou outros. (...) Com a ideia do quarto eixo amplia-se o olhar (e a escuta) para os fenômenos que transcendem a esfera do individual e que são engendrados ou potencializados pelo grupo - pelo estar em grupo. (Psicanálise vol. 18, nº 2, 2016. p. 44)

A presença dos analistas em formação representa a possibilidade de uma construção para o futuro, pois é preciso que os indivíduos participem de forma ativa para vivenciar, intelectual e emocionalmente, as interações grupais e, com isso, adquirir experiências que os capacitarão como novas lideranças tanto no ponto de vista científico e associativo quanto no de transmissão da psicanálise.

Esse envolvimento com a vida institucional das Sociedades propiciará um fortalecimento da identidade psicanalítica e uma compreensão mais ampla a respeito do próprio papel do analista na perspectiva futura de sua instituição, da IPA e da psicanálise.