Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

A pandemia entre nós: desafios, esperança e perplexidade em tempos de transição

  • Atendimento on-line parece ter vindo para ficar, como uma segunda opção para psicanalistas e pacientes

Ainda não estamos vivendo a “pós-pandemia”, mas um tempo de transição entre o período de isolamento para um novo momento até agora com regras mais flexíveis de convivência, diminuição do número de mortes, mas, paralelamente, um aumento crescente de casos pelo mundo, com países voltando a adotar medidas restritivas mais severas. A humanidade tem poucas certezas sobre o que viveremos daqui para frente.

Especialistas sinalizaram que o coronavírus não será erradicado, pois mostrou ter uma grande capacidade evolutiva. As variantes do vírus, sobretudo esta última, a Ômicron, gerou subvariantes. que se aperfeiçoam na forma de transmissão e conseguem, em parte, escapar da proteção à infecção conferida pelas vacinas. Felizmente, não escapam da proteção que as vacinas conferem quanto ao agravamento da doença. “Depois da Ômicron, as vacinas perderam muito a efetividade para proteger da infecção. Então, os epidemiologistas de doenças infecciosas e as pessoas que trabalham seriamente com isso, ninguém prevê o fim da pandemia. A gente prevê esses ciclos que estão sendo observados, pelo menos no curto e médio prazo”, explica o chefe do serviço de Infectologia do Hospital Moinhos de Vento e professor da faculdade de medicina da UFRGS, Alexandre Zavascki. Segundo ele, “vamos ter elevações, dependendo de alguns fatores como: aparecimento de novas variantes, do percentual de vacinados, da duração em relação à última vacina, a última infecção e da vacinação de crianças”, esclarece.

Para o médico, “neste momento, início de junho de 2022, estamos no auge de uma nova onda, causada pela subvariante da Ômicron, sendo que as pessoas não estão mais alertas para isso, os governantes e as autoridades de saúde não estão notificando a sociedade adequadamente”, destaca.

Evidentemente, que esse cenário acaba afetando os consultórios. Para a psicanalista Eneida Iankilevich, “estamos vivendo essa transição com perplexidade, insegurança, algum temor e esperança, como todos. Isso cria um fator que faz parte da estruturação do campo psicanalítico. E a pergunta que se faz é “Como os psicanalistas têm vivido esse tempo de tantas incertezas? O que mudou na prática psicanalítica? Como profissionais e pacientes adaptaram-se ao atendimento on-line?

Participando do board da International Psychoanalytical Association (IPA) em reunião presencial em abril de 2022, após dois anos somente de forma virtual, a psicanalista Anette Blaya Luz, destaca que no encontro ficou acordado provisoriamente que, enquanto Organização Mundial da Saúde não determinar o fim da pandemia, tudo o que se fez lá no começo segue valendo. “Isso dá um bom respaldo para que a gente possa seguir trabalhando com segurança em casa com os casos que funcionam bem à distância”. Outra questão discutida foi o que fazer das práticas psicanalíticas, agora que a pandemia está dando um afrouxamento no número de internações e de mortes. E, mesmo que tenhamos um número importante de novos casos, não se compara com o que já viveu em 2020 e 2021. “Na discussão que a gente teve, a grande questão era se nós iríamos continuar trabalhando on-line ou não. Isto particularmente nas análises e supervisões de formação. Eu acho que o trabalho remoto, seja pela plataforma que for, o encontro virtual ou pelo telefone, veio para ficar e funcionou tão bem para tantos pacientes e colegas que dificilmente vai se abrir mão disso”, afirma Anette.

Para Eneida, a decisão da volta ao consultório não está sendo fácil. “Retomar o atendimento presencial me parece mais difícil do que suspendê-lo, pois antes acontecia um consenso, com indicações precisas de autoridades sanitárias. Uma ‘ordem’ externa que nos isentava de responsabilidade, em alguma medida. No momento atual, acontece uma escolha pessoal: voltar ou não aos atendimentos presenciais? E como esta é uma decisão que diz respeito à dupla analista-analisando, nos perguntamos como fazer isso?”

Anette lembra que “em março de 2020 fomos tomados de surpresa, e da noite para o dia, todos nós tivemos que nos confinar em casa e avisar todos os pacientes que iríamos começar a trabalhar on-line. Aquilo foi muito impactante, muito chocante e um aprendizado importante tanto para nós psicanalistas, como para os pacientes e muitos outros profissionais da saúde e de outras áreas”. Avaliando com um saldo positivo essa experiência, Anette já está decidida: “Não pretendo voltar para o consultório em tempo integral como era antes da pandemia, porque eu gostei muito de trabalhar em casa, eu trabalho bem, muitos pacientes se beneficiaram, então vou manter isso. Mas tenho que voltar para o consultório com alguns pacientes como com os adolescentes que usam drogas, pois eu acho que à distância, nestes casos, não funciona”, explica lembrando também do caso de uma idosa octogenária, que, por conta das dificuldades com a tecnologia, precisa do atendimento presencial.

Eneida, por outro lado, prefere o trabalho presencial, mesmo reconhecendo que uma nova forma de trabalho, híbrida, ou seja, algumas sessões presenciais, outras on-line, tem se desenhado como possibilidade, até preferencial. “O que isso trará - ou não - de modificação na relação analista-analisando, acredito que só o tempo e o estudo conjunto com nosso ‘melhor colega’, como diz Bion, mas também entre colegas, ensinará”.

Na mesma linha, Zavascki, defende a incorporação daquilo que se apreendeu nessa dificuldade, “a gente não precisa seguir um modelo necessariamente igual ao anterior, somente pelo fato de nós termos descoberto algumas coisas no momento de dificuldade. Pela própria evolução, aprendemos em situações de dificuldade, o crescimento surge, muitas vezes, nestes casos. Então, a prática de reuniões ou mesmo de teleatendimentos, de forma virtual, ela se adapta muito bem para uma série de situações, pode ser mantida, não existe uma regra que nos diga que precisemos voltar a vida como ela estava anteriormente. Por que não incorporarmos práticas que se mostraram interessantes e eficientes?".

Uma mudança determinante foi a escolha do espaço pelo analisando durante quase dois anos de distanciamento social. “Essa mudança atingiu a estrutura do setting e me parece determinante para nossas reflexões pois, onde antes eu oferecia um espaço pensado para receber os analisandos com privacidade, conforto e os dispositivos (especialmente o divã) consagrados para isso, durante quase dois anos o analisando é que criou o lugar que tornasse possíveis as sessões”, pondera Eneida. Para ela, toda essa vivência reforça a crença naquilo que vem estudando no que se refere à ideia de ser a escuta analítica, que atenta para o possível sentido e motivações inconscientes do discurso, mas também dos acontecimentos no campo, das soluções encaminhadas e da relação vivenciada, o que distingue o método analítico de outros métodos de abordagem do sofrimento psíquico. “Essa escuta, creio que se mostrou possível e eficaz no trabalho on-line, possibilitando o prosseguimento do processo. Em alguns casos, até mesmo a construção deste processo. Possíveis prejuízos e/ou ampliações aprenderemos com o tempo e a observação e estudo dos desdobramentos do impacto traumático dessa pandemia em nossa atividade profissional”.

Ainda que tudo indique que atendimento on-line chegou para ficar, como uma segunda opção com muitas vantagens percebidas por psicanalistas e pacientes, Anette destaca um ponto importante em relação à formação psicanalítica a ser pensado. “A questão mais significativa, e mais conflituada, para mim, diz respeito às formações analíticas, as análises dos candidatos a serem psicanalistas e às supervisões desses candidatos. Porque para adquirir uma identidade analítica só no trabalho de atendimento on-line eu acho que fica muito difícil”, pondera a psicanalista.

O papel das Sociedades Científicas

Para o infectologista Alexandre Zavascki, com populações muito suscetíveis, a tendência do vírus é ficar circulando e nós vamos ter que realmente aprender a conviver, embora muitos falem que nós já estamos aprendendo ou vivendo um novo normal, ele acredita que estamos muito longe de estar vivendo um novo normal. “Nesse momento nós estamos fazendo uma verdadeira negação do que está acontecendo! Boa parte da sociedade e a imensa maioria dos governos não estão fazendo um trabalho para justamente aprender a viver com uma nova doença que, neste momento vai conviver com a gente em forma de surtos epidêmicos. Então deveríamos estar preparados para isso, tanto em nível individual com orientações de como nos protegermos e como evitar para infectar outras pessoas, quanto a nível estrutural mesmo, nós temos várias medidas em termos de proteção de ar, medidas efetivas para construções, coisas que se poderia melhorar a longo prazo, assumindo que é uma doença transmissível pelo ar e que vai ficar conosco por um bom tempo. Então, nós temos que verdadeiramente aprender a conviver porque não é uma doença que vai encerrar o seu ciclo num curto e médio prazo”.

Zavascki acredita que sociedades científicas como a SPPA, podem contribuir muito neste momento, buscando entender junto às pessoas que se dedicam a essa área especificamente – da infectologia e da epidemiologia - para tentar, mesmo não sendo da área, mas com profissionais qualificados, passar para o seu público uma informação qualificada. “Nesse momento é importante para todos entender e obter uma mensagem correta, saber como realmente se proteger, evitar de contaminar outras pessoas, o que fazer. Porque ao mesmo tempo que vivemos esta pandemia nós vivemos também essa infodemia, que, muitas vezes, traz uma informação desqualificada ou claramente falsa. Então acho que o papel da SPPA é ajudar a divulgar uma informação correta, trazer e ouvir pessoas que se dedicam ao trabalho, que estão convivendo, vivendo e estudando, ou tem as suas linhas de pesquisas justamente nessa área para que se possa esclarecer a sociedade em geral”, defende o médico.