Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 40

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

A passagem do tempo à luz da psicanálise e da arte

  • Ângela Wirth, Edgar Diefenthaeler e Paulo Favalli: reflexões sobre o tempo

Nesta edição do Jornal da SPPA, debruçamo-nos sobre o fenômeno da passagem do tempo por meio de três olhares distintos e apresentamos o resultado de uma “conversa” realizada entre dois psicanalistas da SPPA, Edgar Chagas Diefenthaeler, psiquiatra, mestre em clínica médica pela PUCRS, e Ângela Fleck Wirth, psiquiatra, com o cirurgião plástico e escultor Paulo Pereira de Souza Favalli. Assim, seguimos trazendo outras ciências para dialogar com a psicanálise.

Cada fase da vida vai impondo ao sujeito a necessidade de realizar um trabalho psíquico elaborativo responsável por levá-lo à ressignificação da própria existência. Considerando este aspecto, perguntamos aos psicanalistas: em que medida a utilização, pelo sujeito, de mecanismos de defesa mais primitivos, tais como a negação e a desmentida, podem perturbar sua economia psíquica no que diz respeito à passagem do tempo? Edgar aponta que vivências, conflitos e angústias marcam todas as etapas da vida, desde o nascimento até a morte. Geram marcas e registros que se mantêm sempre atuais na atemporalidade do inconsciente. “A psicanálise considera que vivemos em três tempos: o tempo atual, com nossos conflitos do presente; o tempo passado, com nossos fantasmas da infância, e a antecipação do futuro. ‘Um idoso repetia: não tenho medo da morte, mas não tenho talento para ser cadáver’ (Diefenthaeler e Cataldo, 2016). A dificuldade de lidar com as emoções dessas marcas e registros, tais como a raiva, o medo, a inveja e a tristeza, abalam a estrutura psíquica”, constata.

A passagem do tempo traz consigo a ideia de finitude. “Todas as coisas boas na vida terminam; ocorre a morte de pessoas que amamos e, por fim, temos que nos defrontar com nossa própria mortalidade. O desafio é lidar com o luto e resolver as perdas de forma criativa para o futuro”, pondera Edgar.

Para Ângela, essa tomada de consciência da própria mortalidade é um aspecto bastante importante. “A morte está em nós, é inerente à vida. Freud (1916) afirma que a exigência de imortalidade é produto do nosso desejo. Poder olhar a transitoriedade da vida, apreciar os seus momentos, é uma forma de simbolizar o trabalho da pulsão de morte no interior do psiquismo. Ele escreveu ‘sabemos que tal preocupação com a fragilidade do que é belo e perfeito pode dar origem a duas tendências da psique’. Uma conduz ao doloroso cansaço do mundo, outra à rebelião contra o fato constatado”.

Ainda citando Freud, a psicanalista lembra a sua afirmativa de que o “inconsciente é totalmente atemporal”. Ela explica que “no inconsciente, as vivências do funcionamento orgânico e dos ritmos biológicos do nosso corpo podem ser transcendidas, subvertidas, para serem vividas em outra dimensão corporal, o corpo erógeno (Dejours). O corpo visto nessas duas dimensões (biológica e erógena) ajuda-nos a pensar todo o processo de desenvolvimento, desde a concepção até a morte. A realidade psíquica não pode ser pensada fora da sua história. As experiências são transformadas em vivências únicas por cada um, levando ao desenvolvimento de novas formas de observação, percepção e escuta ao longo da vida”.

Ângela destaca ainda “que cada um pode viver o próprio envelhecimento entre a negação, a desmentida e a simbolização. Cada etapa tem a sua especificidade atravessada pelas angústias, defesas e modos de relação de objeto da infância.” Para ela, “a negação e a desmentida não adaptativas podem ser observadas através do uso de defesas maníacas: superinvestimento no trabalho ou esporte, busca exagerada por procedimentos estéticos, consumo de substâncias que prometem rejuvenescimento. São alguns exemplos de condutas que expõem o indivíduo a riscos e podem levar, por fim, a um afundamento depressivo”.

Na sua prática no consultório de cirurgia plástica, Favalli consegue constatar o afirmado por Ângela, observando os limites entre o uso de procedimentos estéticos como ferramentas de negação da passagem do tempo e como auxiliares no restabelecimento do equilíbrio narcísico do indivíduo no decorrer do processo de envelhecimento. Ele pondera que “o limite está no equilíbrio de uma forma geral. Caso contrário, os estigmas gerados pela passagem do tempo podem ser substituídos por estigmas de resultados artificiais. Procedimentos estéticos, sejam eles menos invasivos ou cirúrgicos, podem tornar-se ótimos meios de se resgatar o equilíbrio narcísico da juventude, apesar de que tal processo, na busca por um bom desfecho, pressupõe maturidade. Quando falamos de se ‘resgatar a juventude’ é importante quebrar expectativas e entender que o processo é linear. O paciente jamais se verá como antes, e o que é possível de ser oferecido deve se adequar às circunstâncias do presente”.

Dados recentes da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) revelam que, em 2020, o Brasil ficou em primeiro lugar no ranking de cirurgias feitas no rosto, como rinoplastia e lifting facial. Em cirurgias plásticas de um modo geral, o país perdeu só para os EUA. Em sua experiência, Favalli percebe, assim como as pesquisas demonstram, que a procura do público feminino pelos consultórios de cirurgia plástica é bem maior que a do masculino. Apesar de variadas, as razões disso estão intimamente relacionadas à passagem do tempo para as mulheres. “As motivações podem ser as mais diferentes e até paradoxais, visto serem decorrentes de outras conquistas da vida como, por exemplo, a gestação ou a amamentação. Tais etapas trazem importantes mudanças ao corpo da mulher, em seu abdômen e nas mamas. Já a menopausa, ainda que inerente à passagem do tempo, costuma acarretar transformações mais indesejáveis, como o afinamento da pele, a perda de volume facial e o surgimento de rugas”.

Nessa relação da passagem do tempo com as possibilidades tecnológicas e com os desejos de cada pessoa, a capacidade de escuta segue sendo um fator fundamental na relação com o paciente, tanto para um psicanalista quanto para um cirurgião plástico. “A aplicação de um tratamento adequado, de resultado equilibrado e natural, passa pela construção de uma relação madura entre médico e paciente, na qual o primeiro deve ser franco e didático e o último aceita se submeter a qualquer procedimento estando o máximo possível ciente dos benefícios, bem como das limitações inerentes à cirurgia plástica”, explica Favalli.

Para ele, “o saudável não está somente em perceber que o paciente não voltará a ser como já foi um dia e sim reconhecer que a interferência cirúrgica ou estética contribuirá para uma nova etapa dentro do seu amadurecimento físico e psicológico. A negação deste preceito leva aos exageros, às sequelas e às frustrações”.

Para aceitar a passagem do tempo, os entrevistados concordam que a arte pode ser um recurso facilitador. Como artista plástico, Favalli defende que a arte é capaz de abrir os nossos olhos para o desenvolvimento de outras sensibilidades. Estarmos sensíveis aos inúmeros aspectos da vida pode ajudar a lidar com a passagem do tempo. “A arte, mais do que facilitadora, é indispensável ao ser humano diante da passagem do tempo. Estarmos sensíveis a ela, às manifestações artísticas de tantas épocas, ao valor de um abraço, às cores das árvores ou à fome de outros nos facilita a seguir em frente, aceitando bem a passagem do tempo quando sorvemos a beleza dos pequenos detalhes e, através deles, promovemos o bem de quem nos cerca”.

Na mesma linha, Edgar afirma que “a literatura, o teatro e o cinema sempre expressaram os sentimentos dolorosos e obscuros sobre o envelhecimento que deveriam permanecer nas trevas da mente, para que o indivíduo, defensivamente, não precisasse se defrontar com essas difíceis emoções. Daí a importância da arte na nossa vida. ‘A arte existe porque a vida dói’, no dizer de Juarez Cruz (2019)”. Ele cita ainda o psicanalista argentino Jarast (1996): “A exigência de enfrentar as perdas de todos os tipos, a capacidade de gerar novos projetos e de manter com criatividade os projetos que estão vigentes, são os maiores desafios que o ser humano deve encarar”.

Favalli concorda com o papel da criatividade na vida humana, destacando que a curiosidade talvez seja a maior ferramenta de nosso cérebro. “É ela que desencadeia os demais processos, através de questionamentos e experimentos. A partir daí, temos um ser humano observador que, diante dos desafios da vida, busca soluções para o seu cotidiano. Por conseguinte, este ser humano desenvolve a sua criatividade através de inúmeros meios, seja pela escrita, pela agricultura, pela arquitetura e engenharia ou pela medicina. A arte é mais um desses meios, mas, curiosamente, mais por um objetivo lúdico do que prático. Através da arte, o homem conta o que vê ao seu modo, interpretando e expressando sua história”.

A questão do envelhecimento dentro da relação analítica

A passagem de tempo igualmente acontece entre as quatro paredes dos consultórios: os profissionais envelhecem, assim como seus pacientes. O descortinar da vida de cada um com as suas sucessivas fases vai transformando sentimentos e pensamentos. Convidamos nossos entrevistados a falarem sobre como percebem, ao longo dos anos, o envelhecimento do analista observado por seus pacientes; o analista acompanhando a passagem do tempo em seus analisandos; o candidato (e, posteriormente, analista) vendo o envelhecer de seu analista didata.

Para Edgar, o envelhecimento é um fato clínico, uma realidade. “Quando o analista idoso vê seus pacientes jovens passando por conflitos que ele já enfrentou, de maneira satisfatória ou não, e vê seu analisando, assim como seus próprios filhos, fazendo planos para dez ou trinta anos, ele luta para se defender da angústia, em parte inconsciente, de perceber que a juventude já passou e o seu futuro é limitado. Sente-se excluído; com amargura, pensa que não vai participar dos alegres e importantes eventos da vida deles. É quando se pergunta: ‘Onde eu vou estar nesses momentos alegres, nestas festas? Estarei no cemitério’. Com o advento da cremação, fica ainda mais difícil de se ter a ilusão de localizar o morto, que vira poeira. Com isso, surge o sofrimento de se sentir abandonado e finalmente esquecido”.

Ele defende ainda que “o analisando precisa se defrontar com os conflitos de seu momento de vida, com a insegurança em relação ao seu futuro e o de sua família e, ao mesmo tempo, ver o analista enfrentando o envelhecimento físico e a proximidade da morte real. Isso mobiliza sentimentos de angústia e de desamparo, antecipando a perspectiva de seu próprio envelhecimento e o dos seus pais. O analisando se pergunta: ‘Até quando vou poder contar com meu analista idoso, didata?’ O analista deve se dar conta das circunstâncias emocionais e físicas do próprio envelhecimento antes do analisando, precisando tratar disso à sua maneira. O analista que não reconhece o seu envelhecimento não consegue ajudar os outros”.

Na visão de Ângela, “apesar do envelhecimento físico e biológico do paciente e do analista, a atemporalidade do inconsciente permanece. Ao mesmo tempo em que o corpo envelhece, a mente segue capaz de produzir e abstrair. O sentimento não reflete a imagem do espelho. A criança que outrora fomos permanece viva em nós. Da mesma forma que ser avós é um marco da temporalidade e um ganho narcísico de continuidade através da descendência, o mesmo acontece com pacientes, que trazem fotos dos netos, das formaturas e do casamento dos filhos, compartilhando as suas conquistas, ou nos procuram após anos em momentos de crise”.

Nesse sentido, Ângela traz a citação de Freud (1916): “Vemos desaparecer a beleza do rosto e do corpo humano no curso da nossa vida, mas esta brevidade lhe acrescenta mais um encanto” (...) “mas se o valor de tudo que é belo e perfeito é determinado somente pelo seu significado para nossa vida emocional, não precisa sobreviver a ela, e, portanto, independe da duração absoluta”.