Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

A pós-verdade e a guerra à luz da psicanálise em debate na abertura do ano científico da SPPA

  • Psicanalista e professora no Instituto de Psicanálise Contemporânea de Tel Aviv (TAICP), Shlomit Yadlin-Gadot convidada pela SPPA.

O ano científico começou na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre com a participação da psicóloga clínica, psicanalista e professora no Instituto de Psicanálise Contemporânea de Tel Aviv (TAICP), Shlomit Yadlin-Gadot, PhD. Ela é professora e supervisora no Programa de Estudos Interdisciplinares da Faculdade de Humanidades e nos programas de Doutorado e de Psicoterapia da Escola de Psicoterapia da Escola Sackler de Medicina na Universidade de Tel Aviv. Escreve e leciona sobre Freud, Lacan e Verdade, integrando perspectivas da psicanálise, filosofia e de estudos culturais. Seu livro "Truth Matters: Theory and Practice in Psychoanalysis" foi publicado pela editora Brill em 2016.

Na entrevista a seguir, ela discorre sobre a verdade e a pós-verdade na contemporaneidade, ajudando a pensar a complexidade do momento que a humanidade vive.

O que é pós-verdade?

Shlomit Yadlin-Gadot: Verdade é uma palavra de peso e precisa ser compreendida e definida antes que o significado de "Pós-Verdade" possa ser entendido. Originalmente, quando a Verdade era uma só (única), ideal e divinamente ordenada, ela trouxe ordem e significado para a humanidade e para a natureza. No entanto, essa mesma Verdade deu origem às trevas da Idade Média e às guerras santas, desembocando no que Kant chamou de substituição do dogma da religião pela racionalidade. A crença iluminista acerca da capacidade racional do homem de criar ordem, moralidade e significado trouxe grandes esperanças. A verdade científica foi celebrada como motivação para a investigação e como base para a constituição de sujeitos éticos e para uma sociedade humana. A segunda metade do século XX, entretanto, desferiu nesse otimismo um golpe mortal. A filosofia continental argumentou de forma convincente que não apenas a verdade era impossível de definir, mas era também um projeto perigoso para se investir. A Verdade ou, nos termos de Derrida (1978), “a violência da metafísica”, foi entendida como combustível para as catástrofes modernas: duas grandes guerras, os gulags (campos de trabalho forçado para prisioneiros) e os campos de concentração. Estas catástrofes foram interpretadas como imposições assassinas da verdade sobre aqueles que não se curvaram voluntariamente diante dela.

Nessa esteira, foi formulada a crítica pós-moderna: generalização, categorização e verdade são formas de violência simbólica que o sujeito impõe aos objetos do seu pensamento. No entanto, mais uma vez a verdade surgiu como uma fênix das cinzas do pensamento moderno descartado. Na realidade, parece que não se pode passar sem ele. O que de fato aconteceu é que a Verdade Única (seja divina/ideal ou científica/correspondente) foi reconhecida como algo que não existe, e que não se poderia permitir que exista no singular.

Assim, na era pós-moderna, ao lado das verdades Correspondente e Ideal, identificamos uma variedade adicional de verdades. Identificamos as verdades Subjetivas como as que se baseiam em nossos sentimentos mais profundos e íntimos. Reconhecemos as verdades Intersubjetivas, aquelas que são baseadas em amplos acordos entre os membros das comunidades responsáveis por ancorá-las e orientá-las. Identificamos a verdade Pragmática, que às vezes só é descoberta retrospectivamente (como na Medicina, quando um procedimento "funciona" como cura, mas os mecanismos causais subjacentes permanecem desconhecidos). Reconhecemos a verdade Coerente, aquela que ganha o seu valor de verdade por meio de um ajuste narrativo, o qual explica elementos antes descartados e caóticos.

Talvez "Pós-verdade" possa significar a passagem da Verdade para as verdades. Entretanto, na linguagem coloquial o termo ganhou um significado diferente. Pós-verdade foi escolhida como a palavra internacional do ano de 2016 pelo Dicionário Oxford devido à sua prevalência no contexto do Brexit e na eleição presidencial dos EUA. A definição de Oxford do termo é a seguinte: “o que está relacionado ou denota circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e crenças pessoais” (Dicionários Oxford, 2019b).

Nesta definição, "fatos objetivos" está posicionado como o oposto de "crença emocional e pessoal". Usado dessa maneira, o termo "pós-verdade" se opõe ao uso da fabricação nas esferas social e política, e parece defender um retorno à honestidade e à transparência. No entanto, aqui devemos notar as implicações reacionárias do termo. Referir-se à verdade no singular é restabelecer a Verdade e, assim, novamente excluir as várias verdades que tanto atenuam os perigos da Verdade quanto se referem a reconhecer e validar as inúmeras fontes (além dos fatos) capazes de conferir às crenças o seu valor de verdade.

Curiosamente, a primeira vez que o termo pós-verdade foi usado (em seu significado contemporâneo) aconteceu em um ensaio de 1992 do falecido dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich na revista Nation. Tesich, escrevendo sobre o escândalo Irã-Contras e a Guerra do Golfo Pérsico, escreveu: “nós, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em um mundo de pós-verdade” (Dicionários Oxford, 2016). Em 2004, Ralph Keyes publicou seu livro “Post-Truth Era”, e o jornalista americano Eric Alterman falou de um “ambiente político pós-verdade”, cunhando o termo “presidência pós-verdade” em sua análise das declarações enganosas feitas pelo governo Bush após o 11 de setembro (Alterman, 2004, p. 305).

A verdade importa?

Shlomit Yadlin-Gadot: A verdade importa porque os seres humanos precisam dela e, de fato, a inventaram. A Verdade não existe "lá fora" no mundo como um objeto, tal como uma pedra ou uma árvore. É uma característica atribuída a uma afirmação na linguagem, de acordo com um determinado critério que os humanos decidiram (uma afirmação pode ser verdadeira se corresponder a fatos/sentimentos/compromissos sociais etc.).

Foi a Filosofia que primeiro formulou a "verdade" como um fenômeno mental e psíquico responsável por atender à necessidade de segurança e estabilidade do homem. John Dewey escreveu: "O homem vive em um mundo aleatório; sua existência envolve, para dizer francamente, uma aposta. O mundo é uma cena de risco; é incerto, instável, assustadoramente instável. Seus perigos são irregulares, inconstantes... Embora persistentes, são esporádicos, episódicos” (Dewey, 1929, 41). O homem não pode viver em um mundo tão imprevisível, temendo perigos esporádicos de fora sem tocar em perigos estranhos que venham de dentro. É a verdade que oferece âncora e direção, transformando o transitório e estranho em estabilidade, ordenando interpretações do eu e do mundo.

Em nosso mundo pós-moderno, aceitamos a necessidade de verdade e a sua pertinência em nossas vidas, bem como o caráter múltiplo da sua manifestação. Essa necessidade de certeza se manifesta em dimensões críticas de nossas vidas, refletindo as nossas necessidades básicas. Precisamos de coerência nas percepções do eu e do mundo (verdade Coerente). Precisamos sentir que nos colocamos no centro do palco e vivemos autenticamente de acordo com o que sentimos (verdade Subjetiva). Precisamos de ideais que nos orientem e que nos concedam a capacidade de transcender tanto o mundano quanto a nós mesmos (verdade Ideal).

As verdades importam porque precisamos delas como ancoragem e orientação; como pontos de estabilidade e como formas de nos posicionarmos em relação a nós mesmos e ao mundo em que vivemos. Por exemplo, podemos nos perguntar, em determinado momento, se estamos vivendo sob o domínio de nossa verdade Subjetiva, agindo de acordo com o que sentimos verdadeiramente? Ou será que aceitamos a verdade Pragmática, que nos afasta de nossos sentimentos e está nos impelindo a agir na direção de alcançar certos objetivos? Aceitar essa multiplicidade requer responsabilidade pelo equilíbrio, bem como negociação dessas várias dimensões do viver.

Com a relativização da verdade, não criamos uma confusão entre o que é verdade e o que é considerado verdade?

Shlomit Yadlin-Gadot: Conceber a verdade como múltipla é bem diferente de relativizá-la. Na relatividade vale tudo. Em um mundo de múltiplas verdades, somos responsabilizados pela verdade de várias maneiras. Reconhecemos o valor da verdade Subjetiva, individual, e tratamos de equilibrá-la em relação à verdade Intersubjetiva, a qual reflete nossa vida na comunidade e nosso compromisso com esta. Reconhecemos a verdade da Coerência, que nos permite prever o futuro e construir uma identidade, sabendo que nem sempre ela se alinha com a verdade da Correspondência e com o que é preciso termos para lidar com o mundo factual externo. Estamos constantemente equilibrando Pragmática e Ideais. Em um mundo de múltiplas verdades, não estamos lidando com a relatividade, mas sim com as complexidades da multiplicidade, encarregadas de equilibrar todas as dimensões de nossa humanidade. As múltiplas verdades reconhecem que a vida não pode ser dada em um único registro. Elas articulam a multidimensionalidade do viver e suas insatisfações.

Diz-se que, na guerra, a primeira vítima é a verdade (ou seja, não é recente o uso de versões e narrativas de realidade distorcidas, manipulativas ou parciais). O que há de novo, neste sentido, na cultura atual?

Shlomit Yadlin-Gadot: Eu refrasearia a relação entre Guerra e Verdade. A guerra é geralmente o resultado da redução das verdades à Verdade, concedendo à ela e aos seus "donos" a legitimidade para dominar várias verdades e impor uma Verdade absoluta.

Gostaria também de sugerir que a guerra pode ser o resultado de não assumir a responsabilidade pela articulação das verdades. Assim, por exemplo, o Neoliberalismo achatou as dimensões humanas complexas da vida à "objetividade" correspondente dos mercados. Neste mundo neoliberal, há uma negligência mordaz no cultivo de verdades Intersubjetivas, Subjetivas e Ideais. Isso criou um mundo em que cada homem e cada país está "por conta própria". Não é assim que a Ucrânia está hoje?

Temas e narrativas parciais podem, sim, ser o resultado de verdades excludentes. A verdade objetivo-Correspondente não é a única relevante na avaliação do conflito atual. Estamos formulando e recebendo apenas uma narrativa parcial se não incluirmos, por exemplo, as verdades Subjetivas e Intersubjetivas dos soldados russos e ucranianos. Se os ucranianos estão dispostos a lutar até a morte, igualando o valor de sua vida com a própria liberdade, e se sua verdade Ideal é que a coragem é uma medida do Homem, essas verdades afetarão o curso dos eventos quase tanto quanto o número objetivo de tanques na fronteira. É sempre relevante saber quais verdades estão sendo omitidas por quem em qualquer narrativa ou relato de eventos, pois qualquer exclusão é um desvio do curso factual-mental-emocional dos eventos.