Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 20 • • Nº 38

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Vivendo e aprendendo:
o analista de crianças e adolescentes depois de 18 meses de pandemia

  • Atividades on-line permitiram a presença de convidados de outros estados e países e de um número maior de participantes

Em março de 2020, iniciava a nova gestão da Diretoria da Infância e Adolescência (DIA), com vários projetos já em andamento e todos os membros da equipe com muitas ideias e entusiasmo. Repentinamente, a Covid-19 chegava e cruzava fronteiras em uma velocidade assustadora e contaminava pessoas de forma exponencial. Sob esse impacto, foi preciso reformular, reinventar. Diante desse cenário inédito e de questionamentos, a DIA organizou uma reunião no início de abril com os psicanalistas da SPPA que atendem crianças e adolescentes para pensarem juntos. Foi um encontro importante, marcado por trocas de experiências entre colegas, viabilizando um espaço de continência a todos. Ficou a sensação de que era preciso ter coragem de seguir caminhando sem muito saber, pois apenas a experiência clínica e o tempo permitiriam um conhecimento maior sobre o trabalho que estava sendo realizado.

O atendimento on-line parecia o caminho possível. Muitos psicanalistas já tinham experiência nesse tipo de atendimento com adultos. Com os adolescentes, principalmente os mais tardios, familiarizados com o virtual, parecia mais fácil. Mas, e com as crianças? Seria possível? Sem experiência, sem referências teóricas, como fazer? Então, foi se fazendo e criando, guiados pela capacidade analítica. Ao longo da gestão, o grupo organizou os eventos da DIA de forma on-line, depositando neles a esperança de serem espaços continentes e de troca, na expectativa de que os integrantes do grupo pudessem crescer juntos nessa jornada que resistia em mostrar quando se encerraria.

Nos dois simpósios anuais e nos encontros de observação de bebês, buscou-se pessoas de fora da área ’psi’: jovens, professores, cineastas, escritores, tudo no intuito de oxigenar as ideias e ampliar os horizontes. Uma gestão, uma gestação, uma digestão... Passados 18 meses, agora no final da gestão, a Diretoria retomou essas questões iniciais nas duas últimas reuniões do ano, com o objetivo de falar sobre o que foi vivido e aprendido durante o longo período de pandemia. Estiveram presentes as psicanalistas Eneida Iankilevich (SPPA) e Gina Khafif Levinzon (SBPSP) para falar sobre a experiência com as crianças, e Marcela Couto e Silva de Ouro Preto (SBPRJ) e Emílio Salle (SPPA) para abordar a clínica com os adolescentes na pandemia. Desses encontros, saíram muitas reflexões. Como disse Marcela, tivemos que “trocar o pneu com o carro andando” e assim foi se aprendendo com a pandemia rolando.

Foi um período de grandes desafios e aprendizados, principalmente com os pacientes. Diante de um cenário de tantas mudanças e necessidade de adaptações, o setting interno foi fundamental para balizar a atitude analítica do grupo. Foram diversas situações inusitadas, desconhecidas, mas, aos poucos, os psicanalistas descobriram o potencial criativo do encontro com os pacientes e a possibilidade de estar perto, mesmo longe.

Aprenderam vivendo. Se a pandemia privou a todos do contato pessoal nos simpósios, nas reuniões mensais da DIA, nas atividades científicas, no cafezinho, por outro lado, ela proporcionou, por meio das atividades on-line, o encontro com convidados de outros estados e internacionais, assim como a participação de um número maior de pessoas nas atividades. Contudo, os desafios continuam. Agora, com o retorno gradual das atividades presenciais, uma nova realidade se impõe. Nada será como antes. De todos os aprendizados ocorridos nesse período, mudanças vieram para ficar. Atividades híbridas, novas possibilidades de atendimento, ampliações da técnica… A equipe da DIA segue com muita esperança na capacidade de pensar, criar e ampliar os seus horizontes.