Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 40

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

II Simpósio Integrado SBPdePA/SPPA debate Arte, Psicanálise e Comunidade

  • Organização procurou fortalecer o trabalho de artistas jovens e dedicados à arte popular

Nos dias 4 e 5 de novembro de 2022, as sedes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA) e da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA) foram palcos de uma iniciativa integrada e integradora: o II Simpósio Inquietações: Arte, Psicanálise e Comunidade, aberto e gratuito, realizado em formato híbrido, o qual os participantes puderam acompanhar via plataforma Zoom.

Para a Diretora de Divulgação e Ações junto à Comunidade da SPPA, Eleonora Abbud Spinelli, esse tipo de evento vai ao encontro do papel social da Sociedade, que busca trabalhar juntamente a populações vulnerabilizadas.

A equipe organizadora do evento procurou fortalecer o trabalho de artistas jovens e dedicados à arte popular, na sua maioria negros, para que assim também fosse possível dar visibilidade às inúmeras possibilidades de criação advindas destes espaços sociais, onde psicanalistas não costumam transitar e que, muitas vezes, desconhecem suas forças culturais, mesmo que aliadas aos fundamentos da psicanálise no que diz respeito ao desenvolvimento emocional favorável de crianças e adolescentes. Nessa atividade, “o ponto alto foi falar COM a comunidade e não SOBRE a comunidade”, aponta a psicanalista Flávia Maltz, uma das organizadoras.

Para a psicanalista Alice Lewkowicz, uma das participantes da comissão organizadora do Simpósio, “a ideia é poder mostrar como o processo artístico em suas várias vertentes pode ser um aliado importante nos processos de subjetivação das crianças e adolescentes vulnerabilizados”.

A professora da Escola Municipal José Mariano Beck, de Porto Alegre, Andiara Barbedo Fontana, conta que ficou muito feliz com o que viu e se emocionou em vários momentos. Segundo ela, uma das ideias mais significativas foi a do protagonismo das comunidades das regiões periféricas da Capital. “Eu me emocionei muito e achei que era porque estavam falando da realidade em que eu vivo na Escola onde trabalho. Mas, quando me dei conta, vi que outras pessoas também estavam emocionadas como eu”, lembra. Ela sugere, inclusive, que seja feita uma formação para que os professores se sintam encorajados a trazer questões que perpassam a psicanálise, buscando a comunidade e multiplicando os talentos. Andiara, que também é estudante de psicologia, acredita que “a psicanálise tem que se voltar para a massa, ouvir e ver mais a comunidade”.

O evento começou com a Mesa 1: Inquietações na Música, que trouxe a rapper e produtora cultural Negra Jaque, o músico e professor Jeferson Fidelix e a etnomusicóloga da UFRGS, Marília Stein. Esta mesa foi coordenada por Denise Lahude, membro aspirante da SPPA.

No segundo dia, a Mesa 2: Inquietações na Literatura apresentou o escritor José Falero; o músico, compositor e produtor cultural Fausto Prado e a Psicanalista em formação da SBPdePA, Carmen Prado (Diretora do IMADIN), sob a coordenação da Psicanalista da SBPdePA, Caroline Milman.

A Mesa 3 discutiu as Inquietações nas Artes Plásticas com a psicanalista Ana Valeska Maia Magalhães e com o artista plástico Estevão da Fontoura, sob a coordenação da Psicanalista da SBPdePA, Ane Marlise Port Rodrigues.

O encerramento foi ao som do Grupo Candombe POA, projeto de comunicadores e tamborileiros que acreditam que a arte e sua difusão transformam a realidade social. O grupo convidou os participantes do evento para descerem a Rua da Ladeira dançando com os músicos e os tambores até a Praça da Alfândega. “A ideia do encerramento foi transmitir a importância dessa abertura da psicanálise para a arte e outros espaços da cidade, mais democráticos, onde estão as pessoas”, explica Alice. O Simpósio contou ainda com uma visita guiada à Bienal, no Margs.

O evento ousou, inovou e emocionou. A seguir, algumas manifestações da comissão organizadora:

“Nosso encontro neste Simpósio me impactou profundamente, me deu uma dimensão do meu não-saber, me ampliou o olhar de mundos e me ajudou a ver o que é difícil de ver, mas extremamente necessário.” Carmen Prado

“Achei que nós aprendemos muito e, por termos pensado o quanto não sabemos, penso que o Simpósio deve servir de estímulo para que possamos entender mais, estudar sobre a branquitude, sobre diferenças, e entender melhor tudo o que foi apresentado buscando ainda mais fundamentos. Sem isso, acho que nossos objetivos se perdem!” Vera Hartman

“O Simpósio fez com que eu ampliasse ainda mais os conceitos de função analítica e de mudança psíquica. Sempre acreditei na psicanálise extramuros, quando o psicanalista sai do seu setting tradicional para promover uma escuta psicanalítica através dos dispositivos da psicanálise na comunidade. Mas o Simpósio me ensinou que há algo além disso: existe um processo psicanalítico que ocorre dentro da comunidade, através de projetos e ações desenvolvidas dentro dela e por membros dela, que promovem subjetivação e mudança psíquica. Estar no lugar do não saber, de uma cidadã de classe média que aprende com pessoas que trazem uma realidade diferente da minha, um ponto de vista muitas vezes nem imaginado por mim, me enriqueceu como psicanalista, como ser humano e como cidadã”. Dionela Toniolo

“Eu achei fascinante o encontro entre arte, psicanálise e comunidade, um caminho de volta à liberdade. Um espaço transicional cheio de possibilidades em que o nosso grupo pode apostar.” Magaly Wainstein

“Achei o simpósio muito tocante. Um espaço de fala com a comunidade para conhecer e aprender com essas pessoas, que vivem situações tão adversas e muitas vezes inimagináveis, encontram na arte uma forma de subjetivação e transformação”. Ivani Bressan