Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Criação do Comitê de Estudos sobre Psicanálise na Comunidade

  • Rodas de Conversas com alunos da EJA são muito proveitosas

Com o intuito ampliar a integração e a expansão do trabalho que vem sendo realizado junto à Comunidade há mais de quinze anos, pelos projetos permanentes em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED) e com a Fundação Projeto Pescar, a atual diretoria da SPPA propôs a criação conjunta do Comitê Psicanálise na Comunidade, coordenado pelas psicanalistas Maria Cristina Vasconcellos (Presidente da SPPA), Eleonora Spinelli (Diretoria da Divulgação e Ações junto à Comunidade), Denise Lahude (SMED) e Josênia Heck Munhoz (Pescar).

As práticas das ações de ambos os projetos fornecem diferentes dispositivos psicanalíticos para pensar e ampliar as subjetivações e relações interpessoais dos indivíduos em suas comunidades. Essas ações têm por base a escuta psicanalítica. Os problemas abordados pelos professores, educadores sociais e os adolescentes (população vulnerabilizada) estão, em grande parte, ligados às consequências sofridas pelos processos de fragmentação e exclusão social, que interferem drasticamente na constituição subjetiva e intersubjetiva do desenvolvimento humano destes indivíduos. Consequências essas que produzem dor e sofrimento, emoções que dizem respeito ao trabalho dos psicanalistas.

O Comitê pretende compartilhar as experiências por meio de interlocuções e trocas com psicanalistas, profissionais de áreas afins e das mais diversas áreas que atuam na comunidade. Existe a convicção de que trabalhar na comunidade requer uma abertura para saberes de outras disciplinas. Com isso busca-se abrir espaço para o debate de questões que abranjam a intersecção da psicanálise na comunidade e a SPPA, criando um fórum interno de permanente discussão na Sociedade, um debate institucional que alcance visibilidade, some conhecimentos e trocas com os psicanalistas, aproximando os profissionais que também exercem ações da parceria SPPA/comunidade. Também é objetivo do Comitê dialogar com psicanalistas de outras instituições, sobre as experiências de trabalho na comunidade em suas Sociedades Psicanalíticas. “Queremos saber como veem estes cuidados de emergências subjetivas e intersubjetivas de populações socialmente prejudicadas, através de um setting não tradicional”, destaca a psicanalista Denise Lahude. A ideia é também buscar uma comunicação aberta e continuada com a Instituição Psicanalítica Internacional.

Encontros mensais inauguram atividades abertas do Comitê

Dando início à sua atividade mensal, o Comitê programou nas duas primeiras reuniões convidar psicanalistas de outras instituições, com experiência em psicanálise na comunidade, para compartilhar e discutir suas práticas. Cada convidada enviou um ou mais textos para serem lidos previamente e servirem de estímulo para o preparo de questionamentos e sugestões da assistência.

O primeiro encontro mensal do Comitê, em maio, trouxe a psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), Silvia Bracco, atual diretora adjunta de comunidade e cultura da FEPAL (2020-22) e coordenadora de saúde Ateliescola Acaia, que apresentou o trabalho “O Humano: Laços entre o Pulsional e a Cultura”, sobre a história do menino Dossiê, o caminho que ele trilhou na direção de estabelecer laços e construir narrativas para falar de si. Um caminho que proporcionou a ele outros recursos para além da descarga pulsional, até então o único com que contava para reagir ao que perdeu ou que nunca teve e, assim, tentar alguma conexão com o mundo.

No segundo encontro do Comitê, em 21 de junho, a psicanalista argentina Analía Wald, Doutora em Psicologia da Universidade de Buenos Aires e Psicanalista da Associação Psicanalítica Argentina, apresentou o texto “Parentalidad-subjetividad y singularidad. El tiempo de la infancia”. Seu ponto de partida é uma pergunta: com que referenciais abordamos a diversidade de práticas realizadas por psicanalistas de bebês, crianças e adolescentes que atuam na comunidade? A atividade estimulou o exercício do processo imaginativo para uma psicanálise de acordo com o tempo e ampliação dos referenciais teóricos permitindo a construção de uma caixa de ferramentas e uma cartografia dinâmica desses processos psíquicos.

Grupo Pescar/SPPA amplia atendimento

A parceria SPPA - Fundação Projeto Pescar, a partir de 2019, ampliou o trabalho desenvolvido com os adolescentes, estendendo-o aos educadores sociais de diversos Estados do Brasil. Em 2022 inovou mais uma vez, incluindo também os funcionários da área administrativa.

No primeiro semestre de 2022, em maio e junho, aconteceram quatro Rodas de Conversa - Pensar e Pescar: Um olhar sobre novas trajetórias, na modalidade on-line. As inscrições voluntárias totalizaram 50 participantes, distribuídos em grupos e coordenados por psicanalistas da SPPA. Para o segundo semestre de 2022 está prevista a volta das RC também com os adolescentes.

Nas RC com os educadores surgiram reflexões diante das mudanças advindas da pandemia e do novo funcionamento institucional estabelecido. Foram verbalizadas necessidades de apoio, reconhecimento, valorização pessoal e profissional, para enfrentar as demandas dos jovens e de suas famílias, em situação de profunda vulnerabilidade social. Os educadores demonstraram gratidão pela parceria de longa data e destacaram a importância do espaço de escuta.

O trabalho com os educadores nas RC tem sido um desafio constante e enriquecedor, enfatizam as coordenadoras do grupo Pescar Josênia Heck Munhoz e Ivani Bressan. A psicanálise implicada no contexto social convoca ao encontro do que é essencial: a ética do cuidado - um espaço de fala e de escuta aos conflitos, à dor e ao sofrimento humano!

Novos públicos atendidos na parceria com escola municipal de Porto Alegre

Considerando a frutífera experiência que teve, há alguns anos, nas Rodas de Conversa ainda presenciais na SPPA, a representante do Serviço de Orientação Educacional (SOE) da Escola Municipal José Mariano Beck, Andiara Barbedo, encaminhou para a atual gestão, coordenada por Alice Becker Lewkowicz e Flávia Maltz, uma proposta para os psicanalistas da Sociedade criarem um projeto de acolhimento aos professores e funcionários para ajudá-los a enfrentar problemas decorrentes da pandemia. As Rodas de Conversa foram muito proveitosas e se seguiu a proposta de ampliação para os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e da formação de uma parceria com a Escola dentro da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (CIPAVE), programa lançado em janeiro de 2022 pela prefeitura da Capital. O objetivo desta parceria é conhecer de perto a Rede de Amparo e realizar um projeto-piloto para lidar com as dificuldades dos professores com o retorno das aulas presenciais.

Nas Rodas de Conversa o tema principal girou em torno das enormes dificuldades dos professores em acolher a irrupção de episódios de violência no retorno dos alunos às aulas presenciais, que revelaram a perda dos códigos de razoável convivência adquiridos anteriormente: situações de agressão, machismo, racismo, homofobia e bullying entre outras. As vivências nas RC ao serem compartilhadas e pensadas em conjunto, permitem dar um sentido humano às experiências emocionais, construindo e ampliando laços sociais.