Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 20 • • Nº 38

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autor

Gisha Brodacz

Psicanalista da SPPA

Resistir à pandemia – Possibilidades e indagações

  • No mundo globalizado nenhum país conseguirá se livrar da doença sozinho

Tanto já se falou, tanto já se escreveu sobre o tema. O que e como acrescentar algo? Foi a indagação imediata que me fiz ao receber a proposta de escrever a respeito. Uma sensação de enfaro invadiu-me diante de assunto já tão saturado de enfoques e análises. Certamente as frustrações inerentes às restrições pelas quais estamos passando há mais de um ano e meio contribuíram para tal sensação. Tantos planos, tantos sonhos perdidos. Ou, na melhor das hipóteses, postergados. E ainda postergar, ainda renunciar? A natureza humana não é muito boa nesse quesito. A tendência, desde os primórdios da nossa vida, é buscar a satisfação imediata. E, a caro custo, quando e se é possível contar com um ambiente seguro e acolhedor, vamos sendo domesticados, ensinados a adiar e a renunciar. Vamos aprendendo o que é a realidade.

Bem, temos a cultura, a contemporaneidade em que a sociedade está inserida e que nos empurra ao antônimo desse aprendizado: oferta irrestrita de prazeres, dispensa dos processos reflexivos, gratificações imediatas estimuladas, o hedonismo ao alcance de uma tecla e, corolário máximo desse processo, a legitimação do sistema de descargas. A cultura não combinou a Covid com a humanidade. Ela foi pega desprevenida. Referências e certezas foram desmanteladas, enquanto o questionamento do sentido da nossa vida e dos limites da nossa existência, do nosso poder, foram postos à prova. O espelho da realidade revelando-nos a face sombria da vida: nossa fragilidade e o colapso da crença em nossa onipotência.

No entanto, a peste ainda nos vigia, ainda nos convoca à cautela e à renúncia. Jared Diamond, biólogo evolucionário norte-americano e primeiro conferencista da temporada desse ano do Fronteiras do Pensamento, manifesta uma visão surpreendente e otimista com respeito à Covid-19. Considera que a mesma pode mudar a sociedade para melhor, já que, pela primeira vez na história, as pessoas do mundo todo tiveram que reconhecer que esse é um problema global, passando a trabalhar juntas. Especialmente porque, no mundo globalizado em que vivemos, enquanto a doença existir, nenhum país conseguirá se livrar do problema sozinho. Por isso, acredita, a Covid-19 pode trazer boas consequências. Ainda segundo Diamond, ela sequer é o maior problema global da atualidade. Considera mais graves outros três males que assolam a humanidade: as mudanças climáticas, o esgotamento dos recursos naturais e a desigualdade entre as pessoas. Contudo, como estas não matam tão rapidamente quanto o Coronavirus, não alcançam uma união mundial para combatê-las.

As colocações de Diamond nos jogam no colo a complexidade desta questão. A quem estamos nos referindo quando falamos na necessidade de resistir à peste para sobrevivermos? O que foi descrito acima cabe, de forma homogênea, a todos os indivíduos? Aos diferentes grupos que compõem a nossa sociedade? E quem já vive na renúncia? Renúncia ao que não poderia fazer parte da vida humana, sob pena de inserir o indivíduo na condição de indignidade na qual vive a maior parte da nossa população. Como encaminhar a essa grande massa de pessoas, que já vive em precariedade endêmica, a necessidade de resistir a uma epidemia? Resistir como e a que exatamente? Como estipular protocolos sanitários para uma população faminta e carente de recursos básicos? Diamond adverte-nos que as resoluções são encontradas para o que pressupõe um interesse comum. Mas é da natureza humana privilegiar a individualidade; esta tendendo continuamente a se sobrepor aos interesses comuns. Grandes catástrofes humanitárias, incluindo as famigeradas grandes guerras, conduziram, sim, a fraturas em nossa onipotência, mas sempre temporárias e reversíveis. E assim, sucessivamente, a história da civilização vem testemunhando um fracasso milenar em nossos propósitos humanitários de solidariedade e apreço ao bem geral.

Freud, em artigos de tonalidade pessimista (1927, 1930), atentou para o paradoxo existente no âmago da nossa civilização, que busca proteger o homem, mas, ao mesmo tempo, pode destruí-lo. Alertou-nos para o sistema de ilusões erigido para tentar dar conta da precariedade da nossa condição e que facilmente pode conduzir a humanidade a um “delírio coletivo”. E, já naquela época, reconhecia que os avanços da cultura e da tecnologia não cumpriram as promessas de mitigar o sofrimento e proporcionar felicidade ao homem.

Ainda não aprendemos com os alertas de Freud, tampouco com as lições que a história da humanidade vem nos brindando fartamente. Seguimos girando em torno do circuito do eu, esquecidos do poder destrutivo causado pela indiferença ao outro e ao mundo em que vivemos.

Deixo aqui, dessa forma, uma indagação: temos como ampliar a força/resistência às provações e riscos inerentes à nossa existência sem nos deslocarmos de um foco essencialmente autocentrado para aquele que inclua o outro?

FREUD, S.(1927). O Futuro de uma ilusão. In Standard Edition, Imago, Rio de Janeiro, 1969.

FREUD, S.(1930). O mal-estar na civilização. In Standard Edition, Imago, Rio de Janeiro, 1969.