Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 20 • • Nº 38

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autora

Suzana Iankilevich Golbert

Psicanalista da SPPA

Manobras Distraídas

  • O nascimento dá adeus à calmaria

Alberto Caeiro refletiu:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Levamos a vida distraidamente, como se ela fosse um hábito, não um bem. Sobre os seus riscos, não costumamos pensar, a não ser em situações-limite. Evitamos considerar que, em algum dia, a morte, essa sentença que nos confronta desde o nascimento, certeza sem data conhecida, nos vencerá.

Quem está ao sol e fecha os olhos

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor. [1]

Com a Covid-19, a morte deixou de ser uma sentença longínqua. Instalada em nosso viver diário, ela mora ao lado e muitas vezes invade o nosso endereço. Interrompeu-se aquela distração que costuma nos proteger.

E agora, José?

As mortes em série nos arrombam. Urge pensar sobre a vida, sobre o tempo e sobre o mundo. Como fecharmos os olhos ao sol? Há tanta solidão nos doentes, tantas vidas encurtadas. Famílias desoladas, devastadas. Enlutadas em pleno isolamento social. Há saudades e faltas por todos os lados.

Muitas faltas acompanham esse momento. Diante dessa ameaça, há necessidade de cuidados. Onde encontrar o calor? Há um rei-sol a nos proteger?

Preciso entender o sol, para re-existir. Pensar na concepção, na gestação e no nascimento. Depois, na vida propriamente dita, impondo os seus contrastes.

É impressionante a mudança no corpo de uma mulher, quando abriga outro ser humano. Um corpo em evolução e outro em revolução. Em sua primeira morada, o bebê tem tudo o que precisa. Vive um estado de plenitude, algo tão primitivo que não será lembrado, mas que, tampouco, será esquecido: permanecerá, vida afora, como um ideal a ser buscado.

O nascimento dá adeus à calmaria. Fora do corpo da mãe, um turbilhão de estímulos exige respostas. A perda da plenitude conduz à insegurança do viver, ao desamparo, à angústia de morte: o trauma do nascimento. Tom Jobim cantou que a gente mal nasce e começa a morrer!

Mal nasce e o bebê é posto à prova, no teste de Apgar, que avalia a adaptação à vida fora do útero, a partir das respostas emitidas no primeiro e no quinto minutos de vida. É emblemático o novato receber notas nos primeiros instantes de sua performance inaugural. Existir é resistir!

O primeiro respiro aciona o funcionamento do corpo para o viver, indicando o contínuo entrelaçamento entre a vida e a morte. A vida sem manual de instruções. Como não ter saudades da vida na barriga da mamãe? Lá, ela fazia todo o trabalho e nos deixava na paz da ausência de necessidades.

Certa vez, Manuel Bandeira quis voltar para Pasárgada, onde era amigo do rei. Na vida depois de Pasárgada, o desejo se fez poesia. O depois é a vida que nos colore.

Ao estudar as culturas e as civilizações, Freud avaliou o que pedem os homens da vida e o que nela desejam realizar. Querem ser felizes e assim permanecer, buscar o prazer e evitar o desprazer. Pois é preciso lutar!

Nos tempos sombrios da ditadura brasileira, a liberdade era Pasárgada, um reino perdido. A censura calava as vozes, mas a criatividade dos poetas oferecia alento, resistência e formas de seguir em frente. Modelos. É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte! Caetano divino, maravilhoso. Colorido, colorindo. Sem distrações, em situações-limite.

Em 1938, os nazistas exigiram de um Freud – então prestes a deixar a sua Viena – uma declaração de que tinha sido bem tratado. Irônica, a sua resposta foi uma denúncia atenta e forte, a serviço da vida: recomendo calorosamente a Gestapo a qualquer um.

John Lennon disse que a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos. A pandemia aconteceu enquanto nós fazíamos outros planos. A pan-experiência da morte batendo às nossas portas sacudiu o narcisismo nosso de cada o dia. O viver distraído virou medo. O risco era comum a todos, mas os desníveis socioeconômicos denunciaram diferentes possibilidades de enfrentamento. Preocupados e envolvidos com os nossos próprios planos e com nossas próprias vidas, esquecemos, distraidamente, da aguda imprecisão do Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

É preciso estar atento e forte!

A vida ameaçada impôs que olhássemos para além de nós mesmos. Em uma solidariedade não usual, surgiram louváveis movimentos de ajuda a pessoas sofridas. Auxílios contra a fome, que não é pouca. Grupos de ajuda profissional. Lutas em prol da vida.

Ainda precisaremos de tempo para conhecer os efeitos da pandemia que sacudiu a nossa existência, mas sinto que nada será como antes, amanhã. Se eu pudesse, não começaria tudo outra vez, nem escolheria muito do que temos presenciado, tristezas que se somam às constatações das mortes. No entanto, uma chama em meu peito ainda queima e arde para que nada tenha sido em vão!

Que possamos seguir em frente mais atentos, melhorados. Afinal, a vida costuma ser bem maior do que a casa distraída de nossos próprios botões.

Viver é preciso.

[1] Caeiro, Alberto. Há metafísica bastante em não pensar em nada. In: Pessoa, F. Quando fui outro, p.81. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.