Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 20 • • Nº 38

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autor

Mery Wolff

Psicanalista da SPPA

Reflexões sobre resistência na infância e na adolescência

  • O rio não pode parar e, então, segue.

Ao pensar nesse tema, ocorre uma imagem: um rio corre tranquilo em uma campina. De repente, surgem muitas pedras e seixos que interrompem o seu fluxo. O que fazer agora: resistir ou desistir? Como fazer para existir? O rio não pode parar e, então, segue. Não mais em seu caminho tranquilo, mas buscando outros espaços para fluir.

A imagem acima representaria um modelo de como lidar com a pandemia?

A ideia é refletir sobre os modos pelos quais crianças e adolescentes têm lidado com a pandemia, se resistem, desistem ou aprendem formas de lidar com o traumático.

Resistência pode ter o sentido de não ceder nem sucumbir ou, ainda, a possibilidade de tornar-se mais forte, mais resiliente. Suportar situações como essa colocou-nos frente a desafios nunca antes imaginados. A psicanálise, desde a sua criação, trouxe diversos entendimentos sobre o conceito de resistência, e é uma ferramenta importante para compreendê-lo. Oferece a possibilidade de acolher o seu duplo sentido – como defesa ou como conflito – e, ainda, em um terceiro sentido, como uma qualidade diante dos sofrimentos que marcam a vida mental e afetiva.

No isolamento atual, voltar-se para si mesmo não é uma escolha, mas uma imposição da realidade, sendo da ordem do traumático, diferente da cultura narcisista, pós-moderna, fechada em si mesma. Sabe-se da importância do outro para a subjetivação e para a sobrevivência psíquica. É o corpo do outro, em sua presença, que permite a construção de vínculos.

A pandemia impactou fortemente os bebês nascidos nesse período, bem como as crianças, adolescentes e suas famílias. Oportunizou a fragilização em seu desenvolvimento que, aliado à pobre convivência com grupo de iguais e às ansiedades parentais, amplificadas em tal contexto de desamparo, geraram uma ameaça à capacidade de integração psíquica.

O isolamento poderia ser uma oportunidade para estreitar vínculos e firmar apegos, como descrito por Bowlby. Mas também, ao contrário, pode reforçar um apego tóxico, o que é um risco na situação atual. O apego constitui a subjetividade, criando a segurança de encontrar outros laços durante o decorrer da vida. Através da experiência inicial do brincar com o corpo do outro/mãe, e depois com outros corpos, a criança vai construir seu mundo interno com objetos confiáveis, os quais darão o suporte necessário para novos encontros e desencontros, sem que estes últimos sejam traumáticos.

O contato com avós, tios e educadores, fundamentais para o sucesso dessa construção, foram abolidos ou reduzidos ao máximo, colocando em cena as carências existentes em alguns lares, enquanto outros conseguiram construir e reconstruir laços através do vínculo, da encenação de presença/ausência e do brincar, importante instrumento na elaboração psíquica.

Nas crianças, foram percebidos prejuízos na área pedagógica, mas principalmente em termos do convívio com outros iguais. Sabe-se que educar não é apenas ensinar, mas proporcionar a experiência emocional dada pelo convívio. A criança ao brincar, tenta dar alguma representação para o que está acontecendo, o que contribui para a elaboração de suas angústias.

Nos adolescentes, as situações são semelhantes, impactando a experiência de busca de autonomia e de trocas entre iguais, fundamentais para o desenvolvimento de capacidades emocionais. Tais capacidades foram reduzidas ou até abolidas temporariamente, trazendo sérios comprometimentos emocionais.

A restrição do convívio causou o surgimento de quadros de patologias emocionais, como ansiedades, medos, dificuldades de aprendizagem e de conviver com outras crianças, além de quadros de agressividade, sintomas que dramatizam e encenam o sofrimento psíquico dessas crianças e adolescentes, surgindo como uma forma de pedir socorro.

As carências postas em cena são dramáticas por impactar as famílias, acentuando-se naquelas que possuem maior fragilidade por falhas na capacidade de continência ou, principalmente, por questões de vulnerabilidade.

Será que a imagem do rio nos ajuda a pensar?