Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 20 • • Nº 38

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autora

Maria da Graça Motta

Psicanalista da SPPA

Caminhos para mitigar o traumático

  • A arte tem a capacidade de nos transportar para extremos emocionais

Recentemente, assisti a um filme terrível: Midsommar, um terror psicológico, misto de sonho e pesadelo, dirigido por Ari Aster. Nos dias seguintes, reexperimentei lembranças e sentimentos que vivi enquanto o assistia. Já na primeira cena, vivenciamos, em conjunto com a personagem principal, a perda de seus pais e um relacionamento morto. Porém, ela e o namorado, junto com os amigos dele, resolvem visitar um vilarejo sueco, onde acontecerá o ritual de uma religião pagã.

Tão longe, tão perto... o que tentava elaborar nos dias seguintes? Dentre suas qualidades, o filme provoca uma forte identificação com os sentimentos de vários dos personagens: apreensão, rejeição, impotência, dor, terror, desamparo, busca de pertencimento, sedução narcísica e triunfo. Há uma ameaça constante de que tudo esteja prestes a ruir, o medo do colapso à espreita. Ao longo dos dias, as imagens – que “pulavam” sem pedir licença na minha mente – foram de fogo e fumaça até quase não me pertencerem, quase... À medida que fui sentindo que sobrevivi, revivendo e nomeando-as, deixava de estar impregnada pelo filme e por sua realidade, sentindo que ganhei algo e me sentia humana por ter tido essa experiência.

Ao longo da pandemia, passamos por diversas reações frente ao inevitável: negação, onipotência, freeze, recolhimento, desrealizações em um mundo distópico. Byung-chul Han [1] afirmou que havíamos superado as ameaças virais. A maioria acreditava que só se veria frente a uma pandemia na ficção, mas fomos pegos por uma no mundo real. Os encontros passaram a despertar fortes sentimentos paradoxais: Unheimlich, familiar e estranho. Como conciliar que nossos encontros de vida pudessem ser também de morte? Como conciliar todos os significados antagônicos da palavra “encontro”?

Winnicott [2] trouxe a ideia de que o fio organizador do desenvolvimento psíquico é a experiência de estar vivo e as consequências das rupturas dessa continuidade de ser. Vivenciar gradualmente a existência, disponibilidade e previsibilidade maternas são fundamentais para a construção da autoestima suficientemente boa e da esperança, contrária à expectativa de destruição e perda. Para o autor, “a fantasia só é tolerável com todo seu vigor quando a realidade objetiva é bem prezada. O subjetivo tem um enorme valor, mas é tão alarmante e mágico que não pode ser usufruído a não ser enquanto paralelo ao objetivo [3].”

De que maneira a alteridade nos afetou, principalmente no início da vida, e, ao longo desta, como irá influenciar a nossa capacidade de tolerar e explorar criativamente o mundo possível da pandemia? Contudo, a alteridade dói, seja a de outro ser humano ou de um novo conhecimento.

O recolhimento físico modificou as vivências estéticas com o próprio corpo, com quem convivemos proximamente e com a arte. Criamos, através da tela bidimensional, um espaço mental tridimensional e sensorial, com formas, cheiros, texturas, mímicas. Nossa própria imagem vem sendo reeditada nesse ‘espelho’.

Mihaly Csikszentmihaly [4] há mais de quarenta anos dedica-se à pesquisa das raízes da felicidade. Um de seus principais achados é a constatação de que a criatividade é uma fonte central de significado em nossas vidas. “Quando estamos envolvidos nela, sentimos que estamos vivendo mais plenamente do que durante o resto de nossas vidas.” Diz que o Flow é um estado mental no qual estamos “imersos no que fazemos, (...) com otimismo quanto ao sucesso do empreendimento. (...) praticamente nos tornando parte da atividade”. Quando estamos atendendo a um paciente, em nossas análises, ou escrevendo, socializando e adquirindo um novo conhecimento, sentimo-nos como parte do “encontro” e nos vemos integrados à humanidade. A experiência estética com a arte também pode nos trazer esse sentimento de pertencimento.

Uma de minhas vivências mais intensas com a arte ocorreu no Museu d’Orsay. Anos antes, fiquei impressionada com a história do quadro Angelus, de Millet [5]. Assim, quando me vi diante dele no Museu, lágrimas começaram a brotar dos meus olhos. Lá estava o casal de camponeses de pé, olhando para o cesto de frutas entre eles no chão. As frutas haviam sido pintadas posteriormente, sabia-se através de análise radiográfica, cobrindo um bebê que estava sendo velado por seus pais. Na surpresa do encontro, conectei-me instantânea e profundamente com toda a emoção que o casal transmitia pela perda mais terrível — algo que, mesmo nunca tendo vivido, nossa experiência coletiva leva-nos a compreender.

A arte tem a capacidade de nos transportar para extremos emocionais que intuitivamente gostaríamos de ignorar em tempos difíceis. Todavia, em épocas em que a conexão humana é removida à força, ela pode nos conectar às emoções necessárias para a nossa sobrevivência coletiva.

[1] Han, B. (2010). Sociedade do cansaço, 2010

[2] Ogden T.H. (2014). Desenvolvimento emocional primitivo. In Leituras criativas. Editora Escuta.

[3] Winnicott D. (1945). Desenvolvimento emocional primitivo. In Da pediatria à psicanálise. Editora Francisco Alves.

[4] Csikszentmihaly M. (2014) Flow, the secret to happiness. TED Talk

[5] Angelus, de Jean-François Millet 1857-1859