Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autora

Laura Meyer da Silva

Psicanalista da SPPA

A Travessia

  • É importante digerir e assimilar os momentos traumáticos para ter esperança e voltar a sonhar

Em dezembro de 2019, quando assisti aos noticiários sobre um vírus que estava adoecendo e matando as pessoas na China, fiquei impressionada. Aquela situação foi aumentando de proporção e começou a se alastrar para a Itália, Nova York e mundo afora. Comovida, eu chorava com cenas na televisão dos corpos mortos guardados em frigoríficos ou containers, pois já não havia mais lugar onde colocá-los. Parecia um filme de terror. Sensibilizava-me com os artistas que faziam música, as pessoas que cantavam pelas janelas. Pensava em Freud, que dizia que a nossa salvação é a arte. Ela nos ajuda a elaborar estes momentos tão difíceis. Trata-se de um trabalho de luto que todos nós precisamos realizar.

Em março de 2020, a pandemia do Covid - 19 chegou ao Brasil. No início fiquei impactada, tentando negar o que estava acontecendo. Não queria acreditar. Levei um tempo para compreender que precisava tomar uma atitude. Naquela mesma semana, fiz os últimos atendimentos presenciais. Combinei com cada paciente a forma como faríamos os atendimentos on-line. Senti um vazio tão grande, uma sensação estranha. Foi quando tomei a decisão de ir para Torres. Lá sempre me senti segura. Não teria contato com ninguém. Estaria sozinha. Poderia atender os meus pacientes com privacidade.

Eu já tinha, em 2019, conseguido autorização do CRP/RS para fazer atendimentos on-line. Entendia que o setting estava dentro da cabeça do analista. Portanto, para mim, não era novidade este tipo de atendimento. O inédito mesmo foi a frequência e a quantidade de atendimentos. Aquilo me absorvia de uma forma tão intensa que chegava exausta ao final do dia. Além disso, precisava estar mais atenta que o normal. Não queria perder nada do que estava se passando com o paciente. Percebi-me mais ansiosa, falando mais do que de costume. Os pacientes, também muito ansiosos, falavam sem parar. Precisei de um tempo até me acostumar com todas estas mudanças. Isso sem falar nas intermináveis lives e Webinar da IPA. Todas as noites haviam atividades e, às vezes, mais de uma ao mesmo tempo. Eu estava sozinha, mas nunca interagi tanto, nunca participei de tantas atividades como durante este período.

Procurava realizar atividades saudáveis. Cuidava da alimentação, fazia exercícios físicos e caminhava na praia, pois estava deserta. Sempre quis pintar aquarela. Já tinha o material guardado só esperando um momento propício. Comecei a pintar tudo o que estava ao meu redor: o mar, os morros e as flores. Isso me fazia muito bem. Aproveitei este tempo para escrever meu trabalho para membro associado da SPPA. Essa atitude fazia-me sentir mais tranquila para lidar com o sentimento de algo inominável e assustador, um inimigo invisível, sobre o qual não se tinha a menor ideia do que esperar. Um sentimento de vulnerabilidade que exigia uma tolerância ao desconhecimento. A troca e divisão das angustias sentidas com nossos colegas e amigos era também muito reconfortante.

Fiquei em Torres por sete meses. Resolvi então voltar para Porto Alegre e retomar os atendimentos presenciais com os pacientes que quisessem, continuando on-line com aqueles que preferiam essa modalidade de atendimento. Foi novamente um momento de muito estranhamento. As ruas desertas e o prédio onde trabalho também me despertaram essa sensação.

Em março de 2022, a situação começou a mudar. A turbulência foi gradualmente amenizada. Em minhas férias fora do Brasil, peguei Covid. Como tinha as três doses da vacina, a doença foi leve, somente tosse e espirros. Como recém tinha pego Covid, sentia-me segura. Comecei a atender sem o uso de máscara. Na sua grande maioria, os pacientes não queriam mais usar máscara e faziam questão dos atendimentos presenciais. Acho que todos nós estávamos cansados.

Agora, em maio de 2022, as coisas estão novamente diferentes. É um período de transição, pois a pandemia ainda não terminou. Muitos pacientes me ligam dizendo que não podem vir à consulta presencial porque estão com Covid. Começo a me preocupar com a possibilidade de adoecer. Não podemos nos descuidar.

Por fim, entendo que a minha função como analista é utilizar a capacidade de reverie, sendo continente para o paciente que está sofrendo. Através da interpretação, tenho o objetivo de ajudá-lo a internalizar e/ou reconstruir a confiança em um objeto interno continente, como diz Bion. Tudo para transformar a ameaça de morte trazida por este vírus em algo pensável. E esperar que todos nós, analistas e pacientes, possamos digerir e assimilar estes momentos traumáticos, podendo ter esperança e voltar a sonhar.