Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 21 • • Nº 39

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autora

Ingeborg Bornholdt

Psicanalista da SPPA

Sobre a transição entre modalidades presenciais e virtuais na clínica psicanalítica

  • Pacientes e analistas experimentaram atenções recíprocas, inclusive com as medidas sanitárias protetoras

O exercício da psicanálise solicitou-nos grandes adaptações imprevistas durante a pandemia. Inicialmente perplexos, porém com ajuste rápido, em poucas semanas, todos assimilamos, em graus diversos, a forma de atendimento on-line. Lembro-me de tentativas por telefone fixo, por áudio e por vídeo enquanto aprendia mais sobre a tecnologia. Em trocas com colegas, discutíamos as possibilidades virtuais; publicações sobre o assunto, inicialmente raras, surgiam. Tivemos respaldo para nos equiparmos um pouco mais. Nossa SPPA foi inspiradora pela continuidade das reuniões, dos seminários e dos eventos regulares em forma virtual.

A falta de encontros presenciais era fortemente sentida pelos pacientes e analistas, nos entornos familiares e sociais. Importantes impactos emocionais geravam angústias. Somaram-se a isto preocupações concretas, como a criação de espaços isolados para o trabalho, com escolas fechadas e famílias inteiras dentro de casa. Em outro extremo, testemunhamos muitas pessoas sozinhas no interior de suas residências. Ameaças e perdas temidas e/ou reais são fontes de sofrimentos, de sintomas e de terrores. Havia menos alternativas de terceirização, abrindo espaço para uma maior participação direta dos pais junto aos seus filhos. Igualmente proliferava a utilização de telas em geral. Esta circunstância restringiu o importante espaço da fala e escuta com e do outro, dos espaços de reflexão e de leitura. Escolas fechadas, hospitalizações e a demora inicial dos programas de vacinação ampliavam angústias em nosso entorno, sempre gerando fantasias, medos e terrores internos.

Nosso mundo onírico sempre está ativo, tanto na vigília quanto nos sonhos. Houve um incremento destes últimos nos relatos dos nossos pacientes. Em situações traumáticas, ocorrem repetições de contextos, assim como, dentro da psicanálise, vivemos e testemunhamos diferenças individuais importantes. Sobretudo as mães e os pais de bebês, crianças e adolescentes, para assumirem suas funções cuidadoras, precisavam reinventar-se em rotas desconhecidas até então. Quanto menores as crianças, mais elas também sofriam privações, a começar pela carga emocional de seus pais. O brincar livre e ludicamente fora de casa, com seus pares, precisou ser interditado. Alguns puderam seguir tratamentos psicanalíticos, com o apoio fundamental de pais capazes de construir um ambiente o mais próximo possível daquele privado no consultório. Havia também benefícios, na medida em que as crianças e seus pais conviveram de maneira mais próxima. Essa reclusão permitiu descobrimentos tanto de maiores aproximações quanto de situações de fragilidade, falta de empatia e negligência com o público infanto juvenil.

Os movimentos e elaborações das gerações possibilitaram desenvolvimentos e estagnações da criatividade. Todavia, no nosso público de atendimentos, pudemos observar um conjunto de rotinas organizadoras e tranquilizadoras desenvolvendo-se individual e familiarmente. Dentro e além do trabalho analítico, o enfrentamento da crise permitiu transformações e ressignificações possíveis.

Retrospectivamente, podemos constatar que os pares analíticos viveram uma grande experiência de transformação e de resiliência. Nós fomos igualmente atendidos pelas continuidades analíticas. Pacientes e seus pais também formavam nós da rede apoio. Instituiu-se o cuidado em sermos informados quando contatos poderiam apresentar risco de contaminação. O trânsito entre modalidades presenciais e virtuais acontecia o tempo todo. Fomos retirados da zona de conforto dos settings instalados. Propiciou-se o profundo sentido da continuidade do trabalho analítico, enquanto a nossa sociedade e o seu instituto de formação também nos inspiravam, seguindo seminários e eventos de forma ininterrupta em modalidade virtual. Formou-se um contexto geral de experiências de continuidades e seguimentos atravessados pelas novas modalidades. Um importante movimento aconteceu dentro das duplas e dos campos analíticos, assim como no entorno maior. No tempo atual, estes movimentos seguem para o retorno à modalidade presencial.

Destaco o cuidado: consigo mesmo, com os outros e com a vida. Pacientes e analistas experimentaram atenções recíprocas, inclusive com as medidas sanitárias protetoras. Claro que também houve - e há - descuidos cruéis em todos os segmentos da sociedade. Porém, vivemos experiências éticas através do cuidado. Testemunhamos isto não só em nós, mas em nossos pacientes, familiares, colegas e amigos, com a força do cuidado funcionando como “consórcios” humanos.

De volta ao tema da transição entre modalidade de atendimento analítico: os mais dependentes, caso de bebês, crianças, adolescentes e idosos com limitações, assim como pais, cuidadores e prestadores de serviços, foram muito exigidos. De forma positiva, revelavam a própria sustentação ou fragilidade dos vínculos confiáveis, protetores e resilientes. A base impressa nas relações mais primárias, assim como suas transformações e ressignificações individuais, ficaram mais evidentes. De forma similar, tendências apoiadas egoisticamente tornaram-se mais gritantes.

Transitamos na rota do presencial ao virtual e, atualmente, do virtual de volta ao presencial possível. Evidentemente, o vírus seguirá circulando na humanidade e os cuidados ainda são necessários. Encontros psicanalíticos virtuais tornaram-se mais conhecidos e possíveis como alternativas de rotas. A maioria de nós já tinha alguma experiência anterior na modalidade à distância, que constitui, sem dúvida, uma importante possibilidade alternativa.

Todavia, na psicanálise, a emoção do contato com o outro vai muito além das palavras. Ambos da dupla analítica registram a comunicação dos diálogos analíticos férteis de enunciados e escutas com todo o equipamento sensório. Inter e intrasubjetividades vão além do verbal, podendo alcançar o não verbal e o pré-verbal mais naturalmente em encontros presenciais. Sutilezas do humor, dos movimentos corporais, dos tons de voz, dos ritmos cardíacos, das acelerações ou reduções de volumes de voz e dos movimentos corporais são carregados de afetos no campo analítico. O trabalho/encontro presencial pode enriquecer elaborações em ambos da dupla.

Mutualidades e reciprocidades são efetivadas ou favorecidas em encontros presenciais. Silêncios, por exemplo, tendem a surgir com maior tolerância no divã do que na tela. Mais facilmente eles encontram seus espaços e tempos de reflexão. Penso que a trajetória do presencial inclui mais amplamente a linguagem verbal, não verbal e aspectos pré-verbais. Transitar com a possibilidade de análises virtuais ofereceu-nos a própria condição de seguirmos trabalhando com nossos pacientes, os “melhores colegas” como Bion escreveu. A vida mental movimenta-se continuamente. Ao mesmo tempo, pudemos experimentar movimentos tecnológicos alternativos e invariâncias técnicas que herdamos de Freud.

A transitoriedade inclui fluidez e leva a experiências individuais diversas, transportando-nos a conclusões igualmente individuais e diversas. A escuta verdadeira, o cuidado consigo e com o outro seguem nossos parâmetros analíticos fundamentais e comuns. Como Bion ensina e escreve, os vínculos afetivos predominantemente positivos geram pensamento e conhecimento. As trocas de experiências enriquecem vínculos possíveis, passando a ser fontes vivas de seguimentos.